Embora a morte seja um assunto que frequentemente evoca receio, ela é um evento biológico tão natural quanto o próprio nascimento. Durante o processo de final de vida, o corpo humano pode apresentar sinais peculiares, e um dos mais marcantes é o chamado estertor da morte.
Este fenômeno, caracterizado por um ruído que lembra um gorgolejo ou um chiado úmido, ocorre geralmente nas últimas 24 a 25 horas de vida. Para quem acompanha o paciente, o som pode parecer perturbador, mas é fundamental entender que, na grande maioria dos casos, ele não reflete dor ou qualquer tipo de consciência de sofrimento por parte de quem está partindo.
O mecanismo por trás desse ruído é simples: com a aproximação do fim, os músculos da garganta e da cavidade oral perdem o tônus e a capacidade de realizar reflexos básicos, como a deglutição ou o ato de tossir. Como resultado, fluidos e saliva começam a se acumular nas vias aéreas. Quando o ar passa por esse acúmulo durante a respiração, produz-se o som característico.
Para amenizar esse quadro e oferecer mais conforto, profissionais de saúde costumam adotar algumas medidas. Ajustar a posição do paciente, mantendo-o de lado, ajuda a facilitar o escoamento dos fluidos. Além disso, a elevação da cabeceira e o uso de dispositivos de sucção ou medicamentos específicos podem reduzir o acúmulo de secreções. Manter a boca do paciente umedecida também é uma prática importante, transmitindo um conforto visual e físico aos familiares.
É importante frisar que o estertor é um processo natural do desligamento do organismo e, muitas vezes, não pode ser inteiramente prevenido. As intervenções da equipe médica servem, sobretudo, para tornar o momento menos angustiante para os entes queridos.
Curiosamente, o estertor não ocorre com todos. Estudos realizados com pacientes em cuidados paliativos indicam que apenas cerca de 40% das pessoas manifestam esse sinal, sendo que, desse grupo, a maioria apresenta o ruído exatamente no último dia de vida.
O processo de morte pode ser acompanhado de outros sintomas, como agitação ou confusão mental, mas a compreensão técnica desses eventos é a melhor forma de reduzir a ansiedade da família. Saber que o paciente não está se sentindo sufocado ou sentindo dor extrema é um passo essencial para que os familiares vivenciem o luto com um pouco mais de serenidade.
Encarar o estertor da morte como parte de uma linguagem biológica — assim como a fome ou o sono marcam outras fases da vida — ajuda a desmistificar um dos maiores tabus da humanidade. A informação técnica atua como uma aliada, permitindo que o ambiente ao redor do paciente seja preenchido por empatia, cuidado e aceitação, transformando o desconhecido em um processo compreensível e humano.