Em 1964, dois estudantes do ensino médio em San Diego, na Califórnia, decidiram realizar um experimento que entraria para a história da ciência, embora de forma bastante perigosa. Randy Gardner, na época com apenas 17 anos, acompanhado por seu amigo Bruce McAllister, propôs um desafio extremo para uma feira de ciências: quebrar o recorde mundial de tempo acordado voluntariamente.
O estudo foi conduzido sob a supervisão do Dr. William C. Dement, renomado pesquisador do sono da Universidade de Stanford. Enquanto Gardner tentava se manter desperto, McAllister assumiu o papel de monitor. A tarefa mostrou-se exaustiva para ambos. McAllister confessou à BBC, anos depois, que a juventude os tornava imprudentes. Ele mesmo, ao tentar vigiar o amigo, passou por episódios de delírio, chegando a escrever anotações aleatórias nas paredes devido ao cansaço extremo.
Acompanhados também pelo Tenente-comandante John J. Ross, médico da Marinha dos EUA, os pesquisadores documentaram a rápida deterioração das capacidades de Gardner. Após apenas 48 horas, o jovem já apresentava dificuldades em tarefas cognitivas simples, como repetir trava-línguas.
À medida que os dias passavam, o quadro piorou drasticamente. Gardner começou a sofrer com instabilidade emocional, falhas graves na memória de curto prazo e, eventualmente, episódios de paranoia e alucinações. Para mantê-lo consciente, o Dr. Dement utilizava atividades físicas como basquete e boliche, já que, no instante em que Gardner fechava os olhos, ele caía em um sono profundo quase instantaneamente.
Ao final de 264,4 horas — pouco mais de 11 dias —, Gardner estabeleceu o novo recorde mundial. Sua primeira noite de sono durou 14 horas seguidas. Curiosamente, ao despertar, ele afirmou sentir-se bem, o que deu a falsa impressão de que o experimento não havia deixado marcas profundas.
Contudo, o preço a pagar surgiu anos mais tarde. Já na vida adulta, Gardner revelou sofrer de insônia crônica e distúrbios persistentes do sono. Ele descreveu um temperamento irritadiço e dificuldades constantes que, segundo ele, eram reflexos diretos daquela privação extrema sofrida décadas atrás.
O experimento serviu como um alerta rigoroso sobre a biologia humana. Gardner passou a defender que o sono deve ser tratado como um pilar fundamental da existência, equiparado à necessidade vital de comida e água. O caso permanece como um lembrete científico de que, embora o corpo humano possa ser levado ao limite, o sono é uma peça inegociável para a manutenção da saúde física e mental.