No famoso bairro da luz vermelha de Amsterdã, poucos nomes são tão emblemáticos quanto os das irmãs gêmeas Louise e Martine Fokkens. Com uma trajetória que atravessou gerações, elas se tornaram mundialmente conhecidas ao protagonizarem um documentário em 2011, quando tinham 69 anos, revelando os bastidores de uma profissão exercida em uma fase da vida em que a maioria já estaria aposentada.
A entrada nesse universo aconteceu de forma precoce. Louise iniciou na atividade aos 17 anos, levada pelo próprio marido. O processo foi naturalizado quase instantaneamente e, pouco tempo depois, ela já ocupava as tradicionais vitrines do bairro.
A princípio, Martine tentou tirar a irmã do caminho. Ela chegou a trabalhar em um bordel fazendo faxina, recusando qualquer envolvimento com clientes. No entanto, o cenário mudou quando o marido de Martine perdeu o emprego durante uma greve. Diante do aperto financeiro, o medo de seguir os passos da irmã desapareceu. Martine confessa que, se não fosse o apoio mútuo entre as duas, ela jamais teria tomado aquela decisão.
Durante quase cinco décadas de carreira, a dupla acompanhou de perto as transformações legais na Holanda, incluindo a regulamentação dos bordéis em 2000. Para Martine, contudo, a lei não foi um mar de rosas: ela acreditava que a formalização beneficiou muito mais os cafetões e trabalhadores estrangeiros do que as mulheres holandesas que já estavam no mercado há anos.
Conforme a idade avançava, o corpo começou a dar sinais de desgaste. Louise enfrentou problemas severos de artrite que tornaram o trabalho fisicamente exaustivo. Martine, por sua vez, notou uma queda drástica na procura. Chegou a um ponto em que seu único cliente frequente era um homem idoso, adepto de práticas sadomasoquistas, que ela mantinha por pura rotina e fidelidade a um relacionamento de longa data.
Apesar da dureza da profissão, a vida das gêmeas foi repleta de histórias inusitadas. Elas chegaram a diversificar os negócios, abrindo o próprio bordel e até um restaurante típico, o De Twee Stiertjes, consolidando sua autonomia no setor.
A aposentadoria definitiva veio por volta dos 70 anos, quando as dores físicas tornaram a continuidade insustentável. O documentário lançado na época serviu como um registro histórico de uma vivência singular, levando o público a conhecer não apenas os números — elas afirmaram, ao longo da vida, ter atendido cerca de 355 mil homens juntas —, mas as dificuldades e as memórias de duas mulheres que escreveram seu nome na história de Amsterdã. Hoje, longe das vitrines, elas contam com os frutos do documentário para complementar a renda e aproveitar a velhice.