Marina Abramović, uma das figuras mais inquietantes e provocadoras da arte contemporânea, prepara seu retorno aos palcos britânicos. Aos 78 anos, a artista sérvia, que ao longo das décadas desafiou a resistência física e mental do público, está pronta para estrear seu projeto mais ambicioso: Balkan Erotic Epic.
Para entender a dimensão dessa artista, é impossível não recordar seu trabalho mais radical: Rhythm 0, realizado em 1974. Na ocasião, Abramović permaneceu imóvel por seis horas, deixando à disposição do público 72 objetos, que iam de flores a uma arma carregada. O experimento revelou o lado mais obscuro da natureza humana, com espectadores passando da gentileza à violência gratuita. A artista chegou a ter o pescoço cortado para que seu sangue fosse bebido. Mais tarde, ela confessou ao The Guardian que estava, naquele momento, pronta para morrer, encarando a experiência como um teste definitivo de seus limites.
A trajetória de Marina é marcada por episódios de intensidade visceral, como performances em que atingiu múltiplos orgasmos em cena. A dor, a espiritualidade e a sexualidade são os pilares de seu trabalho, sempre voltado a investigar a conexão profunda entre o corpo e o cosmos.
Seu novo espetáculo, Balkan Erotic Epic, será encenado de 9 a 19 de outubro no Factory International, em Manchester. Com um elenco de 70 artistas, entre bailarinos e músicos, a obra é descrita como um ritual coletivo grandioso que revisita as raízes eslavas de Abramović. A proposta é uma imersão poética e desesperada sobre a condição humana, explorando o sofrimento, a esperança e a finitude.
A performance terá duração de quatro horas e será dividida em 13 cenas impactantes, como Fertility Rite e Scaring the Gods. A proposta do espetáculo é não linear: os espectadores poderão percorrer o espaço e encontrar diferentes encontros artísticos e rituais, sendo confrontados pela pergunta fundamental que permeia toda a carreira da artista: afinal, para que servem os nossos corpos?
Após a estreia em Manchester, Balkan Erotic Epic iniciará uma turnê mundial, com passagens confirmadas por cidades como Berlim, Barcelona, Nova York e Hong Kong. O espetáculo promete manter a assinatura de Marina: uma arte que não pede licença, não teme o choque e que se recusa a ser meramente decorativa.