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A técnica que os psicólogos usam para saber quando alguém está mentindo

A técnica que os psicólogos usam para saber quando alguém está mentindo

A história da justiça criminal é marcada por condenações baseadas na leitura subjetiva do comportamento humano, algo que, muitas vezes, leva a erros judiciais irreparáveis. Um caso emblemático é o de Marty Tankleff, que aos 17 anos foi considerado culpado pelo assassinato de seus pais em Long Island, Nova York. O motivo? Para os investigadores, o jovem parecia calmo demais diante da cena do crime. A falta de lágrimas foi interpretada como frieza e culpa, custando-lhe 17 anos de liberdade.

De forma irônica e trágica, o caso de Jeffrey Deskovic, também em Nova York, seguiu a lógica oposta. Ao ser interrogado sobre a morte de uma colega de escola, sua angústia e nervosismo extremos foram lidos pela polícia como uma tentativa forçada de parecer inocente. Ele passou quase 16 anos na prisão. Dois jovens, dois comportamentos opostos e o mesmo resultado devastador: a falha em interpretar emoções como provas de mentira.

Segundo a psicóloga Maria Hartwig, do John Jay College of Criminal Justice, a crença de que é possível identificar um mentiroso pelo seu jeito de agir — como desviar o olhar, gaguejar ou mexer as mãos — não passa de um mito cultural sem embasamento científico. O grande perigo reside na confiança excessiva que investigadores depositam em suas próprias intuições sobre o comportamento alheio.

A técnica que os psicólogos usam para saber quando alguém está mentindo

Essa dificuldade em detectar mentiras através de sinais corporais já é bem documentada pela ciência. Em 2003, a psicóloga Bella DePaulo revisou 116 experimentos sobre o tema e concluiu que nenhum sinal físico isolado, como tom de voz ou piscar de olhos, serve como indicador confiável de falsidade. Três anos depois, um estudo abrangente envolvendo 25 mil pessoas mostrou que a precisão média na detecção de mentiras era de apenas 54%, um índice praticamente irrelevante, próximo ao acaso.

Embora muitas instituições de segurança ainda defendam o treinamento baseado em linguagem corporal, especialistas como Samantha Mann e Aldert Vrij argumentam que esses métodos são ineficazes. Mesmo policiais treinados, ao observarem vídeos de criminosos reais, frequentemente falham quando se baseiam em estereótipos comportamentais. Um culpado pode perfeitamente dominar o autocontrole ou, inversamente, uma pessoa honesta pode demonstrar ansiedade por estar em uma situação de pressão.

A técnica que os psicólogos usam para saber quando alguém está mentindo

Diante do fracasso desses métodos tradicionais, a psicologia forense tem migrado para abordagens verbais mais eficazes. Uma delas é a retenção estratégica de provas: o interrogador permite que o suspeito fale livremente antes de apresentar evidências, o que facilita o surgimento de contradições. Outro método envolve pedir que o suspeito desenhe ou descreva detalhadamente a cena do ocorrido, pois quem diz a verdade consegue fornecer descrições muito mais ricas e coerentes do que quem está inventando uma história.

Apesar da ciência exigir a superação da análise comportamental intuitiva, agências como a TSA, nos Estados Unidos, ainda utilizam listas de comportamentos suspeitos — como desviar o olhar ou tocar o próprio corpo — que já foram amplamente desacreditadas por pesquisadores.

A transição para interrogatórios baseados em evidências sólidas é um passo lento, mas vital. Como aponta Mark Fallon, especialista em segurança, abandonar a pseudociência da análise comportamental não é apenas uma questão acadêmica, mas uma necessidade ética para impedir que erros trágicos do passado continuem a destruir vidas inocentes, como ocorreu com Tankleff e Deskovic. No fim das contas, a verdade não se esconde nos movimentos do corpo, mas na consistência do que é dito e provado.

Paulo Bravo

Paulo Bravo

CEO e Fundador do Blog Detalhe Curioso (2025). Sua principal fonte de Curiosidades e Mistérios baseados em Fatos Reais. Veja mais artigos →