O Sudário de Turim, talvez o objeto religioso mais polêmico da história, voltou ao centro das discussões científicas. Conhecido pelo lençol de linho que exibe a marca fantasmagórica de um homem com ferimentos compatíveis à crucificação bíblica, o artefato sempre foi alvo de devoção e intenso ceticismo. Agora, uma nova investigação traz luz a esse mistério, sugerindo uma origem bem diferente daquela que a tradição cristã defende há séculos.
A pesquisa é liderada pelo brasileiro Cícero Moraes, renomado especialista em reconstrução facial e design digital. Em um estudo publicado na revista científica Archaeometry, Moraes utilizou tecnologia de ponta para simular, em ambiente 3D, como um tecido reage ao ser colocado sobre diferentes superfícies.
O experimento consistiu em comparar dois cenários distintos. No primeiro, o pesquisador projetou virtualmente um tecido sobre o modelo 3D de um corpo humano. No segundo, utilizou a técnica de baixo-relevo — um método artístico onde as figuras se projetam levemente de uma superfície plana, comum em painéis e moedas da era medieval.
Ao confrontar essas simulações com fotografias históricas do Sudário, datadas de 1931, o resultado foi surpreendente. Enquanto o tecido sobre o modelo humano real resultou em uma imagem distorcida e inchada, o experimento com o baixo-relevo apresentou uma correspondência visual impressionante com a marca vista no linho original.
Em entrevista, Moraes explicou que a imagem no Sudário é muito mais consistente com uma matriz de baixo-relevo. Ele sugere que tal matriz, feita de materiais como pedra, madeira ou metal, poderia ter sido pigmentada ou até aquecida nas áreas de contato para transferir a estampa para o tecido. Segundo o pesquisador, embora não se possa descartar totalmente a impressão de um corpo real, é perfeitamente plausível que artesãos medievais tenham utilizado técnicas manuais sofisticadas para criar a peça.
Essa conclusão técnica reforça o veredito obtido em 1988, quando a datação por carbono-14 situou a origem do tecido entre 1260 e 1390 d.C. Ao alinhar a evidência física do material com as possibilidades de criação artística da época, o trabalho de Cícero Moraes oferece uma explicação racional sobre como o famoso sudário pode ter surgido durante a Idade Média, afastando-o cronologicamente da época de Jesus Cristo.