O trágico acidente com o voo da Voepass em Vinhedo, no interior de São Paulo, no dia 9 de agosto, reacendeu um debate urgente sobre segurança aérea e os riscos operacionais. Embora as autoridades continuem investigando as causas precisas da queda, o comportamento observado na aeronave — que parecia girar em espiral antes do impacto — levantou questões sobre a chamada "manobra de parafuso".
Na aviação, o parafuso não é uma manobra intencional de voo, mas sim uma condição crítica e extremamente perigosa. Ele ocorre quando uma das asas da aeronave perde a sustentação (o estol) enquanto a outra ainda consegue manter parte da força, fazendo com que o avião entre em uma rotação descendente em espiral, girando em torno de seu próprio eixo vertical.
Existem múltiplos fatores que podem levar a esse cenário de perda de controle:
Ângulo de ataque crítico: Ocorre quando o nariz da aeronave é elevado demais em relação ao fluxo de ar, fazendo com que a asa pare de gerar sustentação.
Voo não coordenado: Movimentos bruscos de guinada (laterais) feitos próximos ao limite de velocidade de estol da aeronave.
Desequilíbrio de motor: Em aeronaves bimotores, uma falha ou diferença súbita de potência entre os motores pode desestabilizar a aeronave, induzindo o estol assimétrico.
Condições meteorológicas: Fenômenos como o acúmulo de gelo nas asas, fortes turbulências ou correntes de ar cruzadas (windshear) podem alterar o fluxo aerodinâmico de forma imprevisível.
A manobra de recuperação de um parafuso exige treinamento rigoroso e reações imediatas do piloto. O objetivo básico é fazer com que a aeronave pare de girar e retome o fluxo de ar normal sobre as asas, permitindo que o piloto nivelar o voo.
Contudo, a física impõe limites severos: se a aeronave estiver em baixa altitude, o tempo necessário para executar os procedimentos de recuperação pode ser insuficiente antes que o impacto com o solo se torne inevitável, como parece ter sido o caso na tragédia em Vinhedo.
Existem diferentes formas dessa queda, cada uma com seus desafios técnicos:
Parafuso normal: O mais frequente, com uma descida espiralada e o nariz voltado para baixo entre 30 e 60 graus.
Parafuso chato: Extremamente perigoso; a aeronave cai de forma quase nivelada, dificultando a aplicação dos comandos de profundor necessários para apontar o nariz para baixo e ganhar velocidade.
Parafuso invertido: Ocorre com a aeronave de dorso, sendo uma situação raríssima e complexa.
Parafuso acelerado: Quando a rotação se torna mais rápida devido à aplicação de potência durante a descida.
Existem ainda variações como o parafuso oscilatório e o helicoidal, que apresentam dinâmicas diferentes conforme o ângulo de ataque e a inclinação da trajetória.
O voo 2283, que seguia de Cascavel (PR) para Guarulhos (SP), transportava 62 pessoas. A confirmação da ausência de sobreviventes causou profunda comoção. A Voepass disponibilizou um canal de atendimento (0800 9419712) para prestar suporte aos familiares e colaboradores afetados por este trágico evento que agora está sendo minunciosamente apurado pelos órgãos de aviação civil.