O Ozempic, originalmente desenvolvido para o manejo do diabetes tipo 2 e que se tornou um fenômeno global no auxílio ao emagrecimento, está no centro de debates que extrapolam o controle glicêmico ou a balança. Um efeito colateral curioso tem ganhado destaque em relatos de usuários: alterações significativas na libido.
Ao navegar por comunidades online como o fórum r/Ozempic no Reddit, é possível encontrar narrativas contraditórias. De um lado, há quem relate uma diminuição drástica no interesse sexual, com usuários descrevendo que o desejo simplesmente "evaporou". Do outro, existe um grupo que relata um despertar inesperado, sentindo uma renovação da vida íntima após anos de baixa libido. Mas, afinal, por que o mesmo fármaco provoca reações tão distintas?
A ciência ainda investiga as causas exatas, mas alguns mecanismos explicam esse fenômeno. A perda de peso acelerada, um dos efeitos centrais da medicação, pode causar um desequilíbrio hormonal temporário, afetando diretamente a resposta do organismo a estímulos sexuais.
Além disso, o próprio funcionamento da droga, que atua na redução do apetite e da ingestão calórica, pode desencadear uma baixa na energia vital. Com menos combustível para o corpo, atividades físicas e o próprio sexo podem se tornar menos atraentes ou mais cansativos. Sintomas comuns como náuseas, fadiga e a constante sensação de estômago cheio também impactam o bem-estar e a disposição, minando o interesse pela intimidade.
Stephanie Faubion, diretora do Centro de Saúde da Mulher da Mayo Clinic, sugere que o medicamento parece amortecer impulsos diversos — como a compulsão por comida ou álcool —, e o desejo sexual poderia ser incluído nesse efeito, embora estudos mais aprofundados sejam necessários.
Por outro lado, não se pode ignorar o lado positivo da perda de peso. Especialistas como David B. Sarwer, da Universidade Temple, lembram que a obesidade está intrinsecamente ligada a taxas maiores de disfunção sexual, devido a complicações como diabetes e doenças cardiovasculares, que prejudicam a circulação e afetam funções eréteis e lubrificação natural.
Ao emagrecer, o paciente frequentemente melhora a qualidade do sono e reduz episódios de apneia. Como a testosterona — hormônio vital para o desejo em ambos os gêneros — é produzida durante as fases profundas do sono, o emagrecimento pode favorecer um aumento na produção hormonal e, consequentemente, da libido.
Somado a isso, há o fator psicológico: a melhora na autoestima e na confiança corporal, além da maior agilidade física e conforto para o ato sexual, transformam a experiência para muitos usuários.
Em última análise, a resposta parece residir na complexidade de cada organismo. O Dr. James Simon, endocrinologista reprodutivo, reforça que os componentes do medicamento atuam em áreas do cérebro responsáveis pela regulação tanto do prazer alimentar quanto do desejo sexual.
A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, reforça que a segurança dos pacientes é prioridade. A empresa orienta que o uso seja estritamente médico e monitorado, incentivando que qualquer efeito adverso seja reportado aos profissionais de saúde e aos órgãos reguladores competentes.