O apocalipse estava marcado na agenda: 23 de setembro. O responsável pela profecia era Joshua Mhlakela, um pregador sul-africano que garantiu ter recebido uma revelação divina direta sobre a data exata do fim dos tempos. Ele afirmou que o evento coincidiria com o Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, e que a Terra sofreria abalos sísmicos enquanto os cristãos seriam arrebatados.
A segurança com que Mhlakela transmitia sua mensagem convenceu muitos seguidores a tomarem medidas drásticas. Em meio a um cenário de incertezas, pessoas chegaram a vender casas, abandonar empregos e se desfazer de bens materiais, acreditando que o mundo que conheciam estava prestes a desaparecer.
Na noite fatídica, o pregador decidiu realizar uma live, alegando ter sido instruído por Deus a não manter o momento em segredo. Ao lado de seis pessoas, ele passou as horas que antecediam a meia-noite em oração, aguardando o momento em que seriam levados aos céus.
Quando o relógio marcou 0h00 e o mundo continuou exatamente onde estava, o ambiente da transmissão mudou drasticamente. Visivelmente desconfortável, Mhlakela pediu aos espectadores que não desistissem e seguissem aguardando. Às 0h18, ele ainda insistia que o "Senhor saberia o momento certo", mas, conforme o tempo avançava e nada mudava, o grupo começou a se dispersar. O vídeo terminou com o pregador solitário encarando a câmera em um silêncio que falava mais do que qualquer explicação.
Dias antes, Mhlakela havia desafiado seus seguidores, perguntando quem seria escolhido por Deus para a salvação. Ao final da data, a resposta foi clara: ninguém.
Mas por que previsões desse tipo ainda conquistam tantos adeptos? De acordo com a psicoterapeuta Tina Chummun, a explicação reside na biologia humana. Em tempos de estresse e instabilidade, o cérebro busca desesperadamente por padrões e certezas para reduzir a ansiedade.
Segundo a especialista, a ativação da amígdala — região cerebral ligada ao medo — torna as pessoas mais vulneráveis a narrativas simplistas que oferecem a ilusão de controle ou salvação. Para muitos, apoiar-se em figuras que clamam saber o futuro torna-se um mecanismo de defesa contra o desconhecido, mesmo que, como provou a experiência de Mhlakela, o resultado seja apenas um constrangimento público diante de uma profecia que nunca saiu do papel.