Cães que vivem perto da zona do desastre nuclear de Chernobyl desenvolveram um “superpoder”

Cães que vivem perto da zona do desastre nuclear de Chernobyl desenvolveram um “superpoder”

Quase quatro décadas após o colapso do reator da Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, um cenário que deveria ser de desolação total revelou uma surpresa científica fascinante. A Zona de Exclusão de Chernobyl (CEZ), palco de um dos piores desastres atômicos da história, tornou-se um laboratório vivo onde cães de rua parecem ter desenvolvido um verdadeiro "superpoder" de sobrevivência.

Pesquisadores analisaram amostras de sangue de 116 cães que vagam pela região. Acredita-se que eles sejam descendentes dos animais de estimação abandonados pelos mais de 350 mil moradores evacuados após a explosão de 1986. O que impressiona é que, contra todas as probabilidades, esses animais prosperaram em um ambiente carregado de radiação ionizante.

Norman J. Kleiman, cientista de saúde ambiental da Universidade de Columbia, destaca que a sobrevivência dessas populações em um ambiente altamente tóxico é um fenômeno notável. A análise genética revelou que esses cães possuem variações específicas em 52 genes que os distinguem drasticamente de seus parentes que vivem fora da área contaminada. Esses genes sugerem que a seleção natural pode ter agido rapidamente, favorecendo mutações que conferem resistência à radiação.

Cães que vivem perto da zona do desastre nuclear de Chernobyl desenvolveram um “superpoder”

Essa resiliência não é um caso isolado. O estudo dos cães faz parte de uma frente de pesquisa maior que investiga como a vida floresce na CEZ. Lobos que habitam o local, por exemplo, demonstram uma resistência impressionante a tipos de câncer que, normalmente, seriam fatais para outros mamíferos. Até mesmo nematoides — vermes microscópicos encontrados no solo — apresentaram ausência de danos genéticos, apesar de viverem em zonas com altos níveis de contaminação.

A pesquisadora Sophia Tintor, líder do estudo sobre os cães, levanta uma reflexão fundamental: será que estamos diante de um processo onde o próprio ambiente seleciona os indivíduos biologicamente mais aptos a lidar com condições extremas?

Embora o desastre de 1986 tenha liberado uma quantidade massiva de material radioativo, transformando a região em uma área de exclusão, ela se tornou hoje uma fonte inestimável de conhecimento. Entender como esses animais desenvolveram mecanismos de defesa biológica oferece pistas valiosas sobre a resiliência da vida e, futuramente, pode ajudar a responder se a área será algum dia segura para o retorno humano — ou como a ciência pode aprender a proteger organismos contra os efeitos da radiação.