Você pagaria mais de 18 mil dólares por uma obra de arte que, na prática, não existe? Foi exatamente isso que um comprador anônimo fez em um leilão realizado na Itália, em maio de 2021. O autor da façanha é o artista Salvatore Garau, que convenceu alguém a desembolsar 15 mil euros por "Io Sono" (Eu Sou), uma peça descrita como uma escultura imaterial.
O conceito, por mais abstrato que pareça, vai além da simples ausência de matéria. Garau, um artista de 67 anos, defende que o vazio é, na verdade, um espaço carregado de energia. Para justificar sua criação, ele recorre a conceitos da física quântica, como o Princípio da Incerteza de Heisenberg, argumentando que o "nada" possui peso e energia condensada. Para ele, a obra ganha existência real na imaginação do observador.
O leilão, organizado pela casa Art-Rite, foi surpreendente. Embora a estimativa inicial fosse de um lance entre 6 mil e 9 mil euros, a disputa entre os interessados elevou o valor final para o dobro do esperado.
Como o comprador "recebe" algo que não pode ser visto? O dono da peça levou para casa apenas um certificado de autenticidade e um manual de instruções. O guia determina que a escultura deve ser exibida em um espaço privado de 1,5 metro por 1,5 metro, sem qualquer objeto no local. Segundo Garau, ao delimitar essa área, a mente do espectador seria capaz de dar forma física à obra.
A reação do público foi imediata e dividida. Enquanto entusiastas da arte contemporânea viram na obra uma ousadia conceitual, muitos internautas reagiram com ironia, questionando se o artista teria apenas colado fitas no chão para rotular o vazio como arte.
Essa não é a primeira vez que Garau provoca o mercado. Em Milão, ele instalou "Buda em Contemplação" usando apenas quadrados de fita adesiva sobre o calçamento. Em Nova York, apresentou "Afrodite Chora" como um simples círculo branco vazio. O artista compara seu trabalho à própria crença em figuras divinas: algo que não podemos tocar, mas que existe através da fé e da projeção mental.
Embora o conceito remeta ao trabalho do francês Yves Klein, que em 1958 comercializou "Zonas de Sensibilidade Pictórica Imaterial", Salvatore Garau leva o debate sobre o valor do intangível a um novo nível. Seja uma genialidade provocativa ou uma jogada de marketing ousada, o fato é que suas obras invisíveis provam que, no mundo da arte moderna, o valor reside tanto na intenção quanto no objeto — ou na completa falta dele.
E você, seria capaz de investir uma fortuna em uma peça que só existe no campo das ideias? O mercado de arte parece já ter dado a resposta.