Conhecidas como os predadores mais temidos dos oceanos, as orcas ocuparam, por décadas, o centro dos holofotes em parques temáticos ao redor do mundo. Tudo começou em 1965, no SeaWorld San Diego, com o sucesso estrondoso de uma fêmea chamada Shamu. O nome tornou-se tão icônico que, após a morte da orca original em 1971, o parque patenteou a marca, aplicando-a a diversos outros animais que passaram por seus tanques.
Embora o SeaWorld tenha encerrado seu programa de reprodução em cativeiro, a prática de manter esses cetáceos em parques ainda persiste. Parte dessa história inclui o intercâmbio de animais entre instituições. Em 2009, quatro orcas foram enviadas pelo SeaWorld ao Loro Parque, em Tenerife, nas Ilhas Canárias, para a atração Orca Ocean. Entre elas estava Keto, um macho de três toneladas, descendente de Kalina, a primeira orca nascida sob cuidados humanos.
Keto, então com 28 anos, era treinado por Alexis Martínez, um profissional de 29 anos que possuía cinco anos de experiência no Loro Parque. A relação entre os dois era descrita como intuitiva e harmoniosa, e a dupla costumava encantar o público. No entanto, em dezembro de 2009, essa dinâmica mudou drasticamente.
Durante o ensaio de um espetáculo natalino, ao lado do colega Brian Rokeach, o comportamento de Keto tornou-se errático. As dificuldades começaram quando o animal falhou em realizar o comando conhecido como “stand-on spy hop”, derrubando Martínez na água. O que deveria ser apenas um erro de rotina transformou-se em uma armadilha mortal. Keto posicionou-se de forma a isolar o treinador e, com um movimento preciso de seu focinho, empurrou Martínez para o fundo do tanque.
A situação escalou para uma violência extrema. Keto passou a arremessar e atacar Martínez submerso. Apesar das tentativas desesperadas de Rokeach de intervir e dos alarmes disparados, o dano já estava feito. Quando a orca finalmente soltou o corpo, o treinador já estava sem vida.
Embora o Loro Parque tenha inicialmente classificado o episódio como um acidente, a autópsia revelou uma realidade muito mais brutal. Martínez sofreu hemorragia interna severa, fraturas ósseas por compressão e lacerações profundas em órgãos vitais, além de marcas de mordidas, evidenciando que o animal agiu com extrema agressividade.
O histórico de Keto já apresentava sinais de instabilidade, com registros de ataques a outras orcas. A tragédia foi um alerta sombrio que se confirmaria pouco tempo depois, quando, em 2010, Dawn Brancheau foi morta por uma orca no SeaWorld Orlando, sob o olhar horrorizado do público.
O clamor gerado por esses incidentes levou o SeaWorld a anunciar, em 2016, o fim definitivo da reprodução de orcas e a gradual substituição de shows performáticos por apresentações educativas. Contudo, para muitos, a imagem das orcas em cativeiro jamais será vista da mesma forma, carregando sempre o peso das vidas perdidas em nome do entretenimento.