No tradicional bairro da Aclimação, em São Paulo, uma imponente mansão tem atraído olhares curiosos, não apenas por sua arquitetura grandiosa ou pelos jardins impecáveis, mas pelo turbilhão jurídico que ocorre atrás de seus muros altos. O imóvel, que pertence ao espólio de Anita Harley, herdeira de uma das famílias fundadoras das Casas Pernambucanas, transformou-se no epicentro de uma complexa disputa judicial que envolve familiares e pessoas do círculo íntimo da empresária.
A escala da propriedade é, por si só, um marco. Com 96 cômodos espalhados por três andares, o imóvel ostenta nada menos que 37 banheiros e cinco cozinhas. Com amplas fachadas de vidro, áreas externas planejadas e um paisagismo exuberante, a residência mais parece uma estrutura institucional do que um lar convencional. Seu interior, conforme revelado em um documentário do Globoplay, é um retrato de opulência, repleto de mobiliário clássico, peças douradas, esculturas e obras de arte de valor inestimável.
O conflito ganhou contornos dramáticos após o AVC sofrido por Anita em 2016. Desde o incidente, a empresária perdeu a capacidade de se comunicar e de gerir seus próprios negócios, o que desencadeou uma batalha feroz pelo controle de seu vasto patrimônio. Entre curatelas contestadas, testamentos anulados e doações sob suspeita, a mansão da Aclimação tornou-se um dos ativos mais disputados.
Um dos pontos nevrálgicos da controvérsia é a transferência da propriedade para Sônia Soares, conhecida como Suzuki, que atuava como dama de companhia de Anita. Enquanto Sônia alega ter mantido um relacionamento afetivo com a herdeira, o que justificaria a posse do imóvel, familiares e advogados contestam veementemente a validade dessa transação, questionando as circunstâncias em que ela ocorreu.
Com o testamento anterior de Anita invalidado pela Justiça, o cenário tornou-se um campo de batalha de versões. De um lado, a família busca retomar o controle sobre os bens que, segundo eles, foram alvo de manobras indevidas; de outro, Sônia defende a legitimidade de sua relação e dos direitos que acredita ter sobre o patrimônio.
Hoje, a mansão de R$ 50 milhões é muito mais do que um símbolo de status social; é a materialização de uma disputa onde se misturam lealdades questionadas, fortunas imensas e o silêncio de quem, por conta da saúde debilitada, já não pode declarar suas verdadeiras intenções. Em cada um dos 96 cômodos dessa residência, ecoam as perguntas de uma batalha judicial que parece longe de encontrar um desfecho.