Durante o longo e sangrento cerco de Sarajevo, na década de 1990, uma das páginas mais macabras da história da Guerra da Bósnia começou a ser escrita: a denúncia de que indivíduos abastados teriam pago para entrar na cidade sitiada e usar civis como alvos em um macabro safári humano. O que antes parecia um rumor ou lenda urbana ganhou contornos de investigação séria após o trabalho do jornalista italiano Ezio Gavazzeni.
Entre 1992 e 1995, Sarajevo viveu sob um cerco brutal. Mais de 11 mil pessoas perderam a vida, vítimas de bombardeios constantes e de atiradores escondidos nas colinas que rodeavam a capital bósnia. A rotina dos moradores era um exercício diário de sobrevivência, onde atravessar uma rua para buscar água ou comida significava arriscar a própria vida sob a mira constante de franco-atiradores.
É nesse cenário de desespero que surge a investigação de Gavazzeni. Segundo o jornalista, cerca de 500 estrangeiros ricos teriam participado desses safáris, pagando para serem levados a posições estratégicas nas áreas controladas por forças sérvias, onde podiam atirar contra a população indefesa.
O esquema operava de forma clandestina e extremamente organizada. Não havia registros oficiais; as transações eram feitas em espécie, com grandes somas de dinheiro trocando de mãos longe de qualquer contabilidade formal. De acordo com Gavazzeni, existia uma verdadeira tabela de preços para os alvos, com valores que variavam conforme o perfil da vítima: crianças e jovens eram os "alvos" mais caros, seguidos por mulheres, homens e idosos.
O jornalista afirma que o caso deixou de ser um rumor quando testemunhos independentes começaram a convergir para os mesmos fatos. Mais importante ainda é a menção a um arquivo secreto que, segundo Gavazzeni, teria sido aberto pelo SISMI (serviço secreto italiano) em 1993. Esse documento supostamente conteria os nomes de cinco cidadãos italianos que foram interceptados e identificados nas colinas de Sarajevo.
A existência desse arquivo teria sido confirmada, segundo o repórter, por figuras como Edin Subasic, Michel Giffoni e Adriano Sofri. Para ele, o fato de autoridades estatais terem registrado a presença desses indivíduos na zona de conflito eleva o relato a um nível de documentação histórica, e não apenas de testemunho oral.
As alegações também foram exploradas pelo jornalista croata Domagoj Margetic em seu livro "Pay and Shoot" (Pague e Atire). Margetic chegou a afirmar que membros da elite europeia, incluindo alguém da realeza, teriam participado dos disparos, chegando ao local de helicóptero. O autor baseou parte de suas acusações em documentos que teriam sido entregues por Nedzad Ugljen, um oficial da inteligência bósnia assassinado pouco tempo após o fim do cerco.
Embora nomes como o do ex-fuzileiro naval norte-americano John Jordan tenham mencionado a existência de "turistas atiradores" na região, a falta de provas materiais definitivas — como fotografias ou filmagens da época — ainda alimenta o ceticismo. No entanto, a persistência de relatos convergentes e a existência citada de arquivos de inteligência tornam o caso um mistério persistente e perturbador sobre a crueldade humana em tempos de guerra.