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A língua mais ameaçada do mundo tem apenas uma pessoa viva que consegue falar fluentemente

A língua mais ameaçada do mundo tem apenas uma pessoa viva que consegue falar fluentemente

Já pensou na possibilidade de uma língua inteira estar sendo carregada pela memória de apenas uma única pessoa? Essa é a realidade do N|uu, o idioma considerado o mais ameaçado de extinção em todo o planeta.

O nome N|uu — que se pronuncia com um som de estalo peculiar entre o N e o uu — é um tesouro linguístico com raízes profundas, que remontam a mais de 20 mil anos. Originário do povo San, os caçadores-coletores indígenas do sul da África, o idioma hoje sobrevive quase exclusivamente através de Ouma Katrina Esau, sua última falante fluente.

A trajetória do N|uu é marcada por uma luta resiliente contra a supressão. Durante séculos, o idioma floresceu entre o povo ǂKhomani no Kalahari. Contudo, a chegada dos colonizadores britânicos no século XIX trouxe tempos sombrios. Falar a língua nativa tornou-se um risco físico, forçando o N|uu a se esconder nas sombras, sendo praticado apenas em sussurros dentro de casa.

Após décadas de silenciamento, um sopro de esperança surgiu nos anos 90. O linguista Nigel Crawhall, em parceria com as Nações Unidas, iniciou uma busca por sobreviventes desse patrimônio. Inicialmente, 25 pessoas revelaram conhecer o idioma, sentindo-se finalmente seguras. Porém, a passagem do tempo foi implacável e, desde dezembro de 2021, Ouma Katrina Esau tornou-se a única detentora da fluência plena.

A língua mais ameaçada do mundo tem apenas uma pessoa viva que consegue falar fluentemente

Apesar do cenário desafiador, o N|uu se recusa a desaparecer. Ouma Katrina Esau tem dedicado sua vida a transmitir esse legado. Sua neta, Claudia, aprendeu o idioma como segunda língua, e ambas colaboram com a linguista Dra. Kerry Jones, da organização African Tongue, no desenvolvimento de um dicionário digital para perpetuar a língua.

Além disso, desde maio, Esau tem levado o ensino do N|uu para escolas da região. É a primeira vez, em décadas, que novas gerações têm a oportunidade de ouvir e aprender os sons de cliques que definem essa cultura ancestral.

Preservar o N|uu vai muito além de salvar um vocabulário. Trata-se de manter viva uma visão de mundo específica. Cada língua é um repositório de conhecimentos sobre a história humana e a natureza, e o seu desaparecimento representa uma perda irreparável para a humanidade.

A Dra. Jones ressalta que o declínio do N|uu reflete traumas históricos, como a imposição de fronteiras nacionais que fragmentaram comunidades nômades. No entanto, o esforço atual de revitalização serve como um farol de esperança. Em um mundo onde línguas morrem em um ritmo preocupante, cada palavra preservada é uma vitória — um elo valioso entre o passado e o futuro que insiste em não ser esquecido.